O teatro de Bibi Netanyahu
Ele apresentou novas provas de mentiras iranianas antigas e conhecidas – nenhuma de que o Irã tenha violado o acordo de 2015 O primeiro-min...
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Ele apresentou novas provas de mentiras iranianas antigas e conhecidas – nenhuma de que o Irã tenha violado o acordo de 2015 O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ontem que o "Irã mentiu" Amir Cohen/Reuters É conhecido o dom teatral do premiê israelense, Bibi Netanyahu, ao expôr sua oposição a qualquer acordo com o Irã – país que ele jamais considerou “confiável”. Foi assim em 2012, quando ele levou à tribuna das Nações Unidas um desenho para ilustrar o discurso em que afirmava ter provas de que os iranianos estavam com 90% da bomba atômica pronta. Foi assim em março de 2015, quando foi discursar no Congresso americano à revelia do Executivo, numa tentativa de combater o acordo que se desenhava com os iranianos e repetiu deter provas de que o Irã estava perto da bomba. Foi assim ontem, quando afirmou na TV israelense – não em hebraico, mas em seu inglês impecável e sem sotaque –, ao lado de dezenas de pastas de arquivos, ter provas de que o “Irã mentiu”. Na apresentação, exortou o presidente americano, Donald Trump, a abandonar o acordo nuclear de 2015. Bibi não mudou. Nem na forma, nem no conteúdo. Tecnicamente, ele tinha novas provas ontem. Elas eram resultado de uma operação bem-sucedida do Mossad, o serviço de inteligência israelense, que capturou 55 mil páginas impressas e 183 CDs com segredos do programa nuclear iraniano em janeiro, na invasão de um discreto complexo militar em Teerã. Tecnicamente, as provas revelam mentiras iranianas. Ao contrário do que o Irã sempre sustentou oficialmente, os documentos demonstram que o programa de desenvolvimento de armas nucleares prosseguiu depois de 2007, sob a liderança do cientista Mohsen Fakhrizadeh. O objetivo era produzir pelo menos cinco ogivas nucleares, capazes de ser acopladas a mísseis Shahab 3, de alcance suficiente para atingir Israel, Grécia ou Romênia. A iniciativa secreta era uma continuação do Projeto Amad, que o Irã afirmava ter desmantelado em 2007. Tecnicamente, contudo, os documentos revelados por Bibi nada trazem de novo. A mentira iraniana era conhecida. Em 2011, a própria Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) denunciava em relatório que o Irã mantivera seu programa estruturado para obter a bomba. Faltou Bibi mostrar o principal: provas de que o Irã tenha violado o acordo de 2015, firmado com Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha. De acordo com o último relatório de inspeção da Aiea, o Irã tem cumprido todos os compromissos estipulados, informou o diretor-geral Yukiya Amano no último dia 5 de março. Tal fato é aceito mesmo por opositores do acordo. O próprio chefe de Estado Maior israelense, general Gad Eisenkot, reconheceu, em entrevista ao jornal Haaretz, que “neste momento, o acordo, com todos os seus defeitos, está funcionando e adiou a realização da visão nuclear iraniana por dez a quinze anos”. Para Bibi, o acordo jamais deveria ter sido fechado. Sua opinião é a mesma do novo conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, e do novo secretário de Estado, Mike Pompeo: o Irã nunca foi, nem nunca será “confiável”. A expectativa é que as novas revelações levem Trump a suspender a renovação do acordo. Trump – plateia a quem o teatro de Bibi se dirigia – não perde uma oportunidade de criticar o acrodo, considerado um dos maiores troféus diplomáticos do governo Barack Obama. Disse ontem que a apresentação de Bibi provou que ele estava “100% certo”, mas não deu pistas sobre a decisão que tomará no próximo dia 12. Israel já está em guerra velada contra o Irã na Síria. No último domingo, o bombardeio a um depósito de munições em Hama, atribuído a israelenses, matou ao menos 16 pessoas. No último mês, o Irã tem enviado a seus aliados na Síria novas baterias anti-aéreas, semelhantes às que derrubaram um caça israelense em fevereiro. A apresentação de Bibi acontece no momento propício não apenas para fornecer a Trump um pretexto para abandonar o acordo – mas também para justificar suas ações na Síria e para desviar a atenção de mais uma ofensiva com mortos palestinos na faixa de Gaza e das denúncias de corrupção que o atormentam. O espetáculo de Bibi tem de continuar.
Fonte G1 > Mundo
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